quarta-feira, 13 de julho de 2011

Escolher é uma escolha?

A Escolha de Sofia





Depois de muitos anos sem ver A Escolha de Sofia, fui agraciado, ontem, pela TV Futura, com esta obra-prima e todo seu esplendor me veio à mente com novas perguntas e inquietações. Sofia tinha mesmo escolhas? Ou, seu destino já fora traçado, de alguma forma, pelos atos acontecidos ao seu redor? Esse não é o a grande questão que envolve nossa humanidade? O livre-arbítrio existe? Ou somos compelidos a apenas exercer aquilo em que o meio ao nosso redor nos destina? Perguntas difíceis e muitas vezes sem respostas simples.

Simples são escolhas básicas de nosso dia-a-dia: pasta de dente, roupa, comida, carro, conversa, amizade, colegas de trabalho, família e, mesmo assim, aqui, já podemos ver que as coisas nem sempre são como gostaríamos que fossem. É importante, também, refletir sobre àqueles que não tem acesso a estes bens ou relações. Suas vidas, logo, se transformam em um mar de incertezas e a única escolha que têm é o próximo prato de comida. Mas, voltemos à Sofia.

Sofia tem a pior escolha que uma mãe poderia fazer: optar qual de seus filhos deve morrer e qual deve tentar sobreviver com ela em um campo de concentração. Mas, se analisarmos bem, ela não tinha alternativa, a situação toda já estava pré-definida pela história que engolia, dilacerava milhões de pessoas na II Guerra Mundial.




Ela sobrevive e vai morar nos EUA, perde filhos, pais, marido. Tudo. Conhece Nathan, esquizofrênico e encantador. São dois seres que escondem segredos um ao outro, mas são esses segredos e essas mentiras que fazem com que sobrevivam em meio à dor e sofrimento de suas vidas. E, então, aqui, vemos uma escolha, a escolha de sorrir e dançar sobre suas vidas dilaceradas.


Não será assim, para conosco, simples mortais? Precisamos muitas vezes mentir, ou esconder nossas mais profundas dores, para tentarmos sobreviver a elas e a nós mesmos?! E sendo dessa forma, já não importa se a história é pré-definida, ou não. São as mazelas do caminho que nos transformam naquilo que agora somos, muitas vezes, esse aquilo está longe do que sonhamos, muitas vezes mais próximo. Porém, o que fazer?
Escolher sempre que possível: um sorriso sincero e humilde.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Deuses Mortais



Deus está morto!?
Um amigo chamado Nietzsche me contou, mas,
paradoxalmente, pego-me a procurá-lo:
em gavetas, atrás de portas, embaixo de camas.
Contudo, só encontro Clarice no corredor.
Porém, ou outro amigo, Caio, disse-me que persistir sem fé é preciso,
mesmo que, como Oscar em uma prisão; ou ainda, como Virgínia,
com uma corda entrelaçada ao pescoço.
E, então, passo-me a perguntar: onde estarás!? 
Se verdadeiros Deuses, ilustres como esses, também,
perpetuaram a mesma pergunta.
O que deixar a nós, simples mortais?


Não se preocupem, o rivotril está em dia!!!
Logoportanto, tais palavras, são apenas divagações,
em um dia em que frio se instala em nossos corpos
e não há cobertor que os esquente.

sábado, 16 de outubro de 2010

Quem é Pedro Almodóvar?



Muitos se perguntam, poucos sabem, ou na realidade pensamos que sabemos. Parece ser um eterno paradoxo ambulante, como suas películas.

Não esqueçamos nossa necessidade cartesiana de tudo querer saber, de tudo ter uma resposta. Porém, é importante lembrar que nem sempre há respostas. Sejamos mais livres no pensamento, sejamos mais desinibidos na arte de viver e deixar viver, sejamos mais coloridos, mas nunca esquecendo as mazelas de nossos dias. Sejamos mais almodovarianos.Drama, palavra intrinsecamente ligada à filmografia de Pedro. Comédia, palavra também inerentemente ligada a seus filmes. Logo, pode-se deduzir que ele transformou-se no “senhor” do drama-comédia e por que não do melodrama, gênero, muitas vezes visto como inferior, de segunda classe, mas que aqui, em um mundo almodovariano, assume de vez o papel de gênero rico e repleto de informações substanciais às nossas vidas.

A ironia e os paradoxos apresentados em suas películas nos apresentam um mundo onde a profundidade, muitas vezes, está escondida nas aparências, nas superfícies. Mas, esse mundo vem diretamente contra o mundo “estável” e certo ao qual estamos acostumados a viver. Sendo assim, o mundo almodovariano, repleto com suas perturbações, indagações e deboches acaba por nos mostrar o único caminho real para sobreviver em meio ao mundo repleto de caos, dor e sofrimento. Seria como um sentido de contra-sendo ao status estabelecido.

O humor e o duplo sentido, usados intensamente, tornam-se provocativos, indagativos e adoravelmente apaixonantes em seus filmes. A vida como ela é passa por seus cenários, por seus personagens, mesmo que exageradamente, tudo ali é real, é visceral ao ser humano.

Suas histórias, desprovidas de maniqueísmo, culpa e pecados, oriundos de nossa educação anglo-saxão, remete-nos a histórias gregas, onde esses elementos ainda não “contaminavam” a sociedade e o homem, assim, podia seguir seu rumo, sem se sentir culpado por seus atos, como os deuses gregos, a vida corria em meio a um rio. Sem bons, ou maus, apenas seres humanos.



Ídolo ou Ícone?
 Acredito ser possível descrevê-lo como os dois. Ídolo, aquele em quem se idolatra, se vê alguém em quem se espelhar se enxergar e o ícone é aquele que já ultrapassou este elo, é algo, além disso, tornando-se referência a uma geração ou gerações. Ícones de beleza: Bridget Bardot, Sofia Loren. Da música: Michael Jackson e Madonna, já Lady Gaga é somente, até agora, um ídolo.
No cinema temos Alfred Hitchcok, incontestavelmente um ícone, seu cinema é de autor, sua estética é incomparável, tornado seus filmes imediatamente reconhecidos,

E, são por esses fatos que Almodóvar torna-se já em vida, em um ícone, o seu cinema é definitivamente de autor. Pode-se olhar um película sua sem saber ser dele, porém reconhecer os signos ali depositados, como: as cores, os personagens dramáticos, a música, os cenários, o roteiro, enfim uma gama de itens ao qual imediatamente somos remetidos a seu nome. Sim, Almodóvar já é um ícone, agora o próximo passo é transformar-se em mito, isso já seria outra história, bem melodramática, talvez, por que não?


“Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão.”...o início.
 Quando Pedro se lança ao cinema, a Espanha começa a retornar à democracia, à vida com o fim do regime militar de franco. O começo oficial de sua carreira de dá em 1980, com o filme Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão, porém antes, já havia produzido inúmeros curtas metragens e feitos experimentos audiovisuais, muitos sob a influência do cinema americano de Andy Warhol. Cinema, este, experimental e underground aos olhos da época.

Pedro, nesta época, dizia-se niilista, onde a ausência de sentido na ordem e a distância de Deus, estavam profundamente refletidos em sua vida.

Pepi, Luci... Fora gravado com baixíssimo orçamento, mudando o roteiro inúmeras vezes. Filme de estética pop-punk, conta a história de três amigas. Luci, dona de casa, que encontra no lar uma espécie de prazer perverso, uma vez que se sujeita totalmente ao marido. Suas duas amigas, Pepi e Bom não aceitam essas condição e acabam por abandoná-La. Cheias de vida e de espírito livre, porém solitárias.

Esse aspecto, de solidão no ser humano sem objetivos ou perspectivas, irá permear inúmeras películas de Pedro. Nota-se na seguinte frase do diretor: “Interessa-me muito esse caráter vago das personagens femininas...que não tenha objetivo particular e que constantemente beire o estado de crise, encontra-se numa situação de extrema disponibilidade, tudo pode lhe acontecer”... vide Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, A Flor do meu Segredo, De Salto Alto e tantos outros.


A lei.
 Em filmes como Pepi..., onde o personagem policial é extremamente desprovido de história, em Ata-me!, onde Antônio Bandeiras é um fora da lei, ou em de Salto Alto, onde o Juiz é problemático, nota-se a negação da figura da lei. Em outra frase do diretor entende-se o porquê disto: “luto para que ela esteja ausente dos meus filmes. Não tenho consideração pela lei. É por isso que meus filmes nunca foram antifranquistas. Neles eu simplesmente não reconheço a existência de franco. É um pouco a minha vingança contra o franquismo: quero que dele não permaneça nem a recordação...”. Vê-se, então, o sentimento que Almodóvar traz em si e em seus filmes.

O absurdo, a transgressão.
 Em seu cinema o inverossímil, torna-se verossímil. Seus argumentos são invenções, ficções e até irreais, porém, quanto mais absurdos forem, mais são tratados com veracidade e naturalismo. Seria o cinema do absurdo, entretanto não surreal como Bunuel, mas explicitamente humano, uma divina comédia de nossos costumes, onde o inferno, o purgatório e o paraíso seriam, todos aqui mesmo, na terra e dentro de cada de nós.

A história de Labirinto de Paixões, de Kika, são bons exemplos. O surreal, tornando-se real. Todo esse argumento irá permear a obra de Almodóvar. Travestis, desajustados, pecadoras, infiéis, problemáticos, mentirosos, tarados, maníacos, psicopatas, homossexuais, rejeitados todos eles e muitos outros, fazem parte de suas estórias de absurdos e transgressões. Parece que Almodóvar quer abraçar os excluídos, os que estão à margem da sociedade, os sem-voz. Em seus filmes esses seres errantes possuem voz, alma, coração, sentimentos e inúmeras histórias: dramáticas, melodramáticas e cômicas. Todavia, histórias demasiadamente humanas.

Exemplo:

Acredito ser, Maus hábitos, o maior expoente da transgressão na filmografia de Almodóvar. É a estória de um convento que abriga somente mulheres desajustadas, perdidas, desiludidas, pecadoras e rechaçadas pela sociedade, todavia, pela falta de delinqüentes problemáticas, são as próprias freiras que se transformam em seres extremamente criativos, autônomos e livres. Demonstrando assim, que na ausência do pecado, tornamo-nos melhores. Quer maior transgressão que essa?

Freira viciada em heroína e outra em ácido, freira escritora de livros eróticos sentimentalistas, freira que tem um tigre como animal de estimação (maus Hábitos)

Pode-se dizer, que todo o esplendor apresentado, a catarse de emoções, a montanha russa de sentimentos ao qual Pedro nos leva, estão muitas vezes, escondidos por nós mesmos ou impostos pelo social, e ainda bem que temos a ele para abrir nossos olhos e almas.


O Sagrado.
 É importante salientar que a Espanha é um país de forte tradição cristã, e foi em meio a essa Espanha que Pedro cresceu, mais precisamente em uma pequena vila no interior, chamada de La Mancha. Com a morte do pai, ainda garoto, fora criado pela mãe e irmãs, freqüentou colégio interno, assim como seus personagens em Má educação e cresceu em uma Espanha assolada pela ditadura de franco. Somente, mais tarde no início de sua vida adulta é que a Espanha começa a dar os primeiros passos rumos à democracia, o que ele chamaria “de volta à vida”. A partir desses fatos, pode-se inferir que seu espírito, sempre envolto com criatividade, não poderia aceitar tais condições, sem pelo ao menos mostrar em sua trajetória de diretor o quanto o cristianismo estava enraizado em sua alma, até, porque, como vimos acima, ele nega-se a falar do período de Franco em seus filmes, negando esse passado cruel.
Entretanto o sagrado sempre esteve a “persegui-lo”, fosse em casa, fosse em sua educação em reformatórios. Sendo assim, a relação que se estabelece entre o autor e o cristianismo não será sem ruídos.

Em quase todos os filmes pode-se observar cruzes, altares, orações, santos, cemitérios. É um verdadeiro aparato cristão, envolto a personagens marginalizados, mas que muitas vezes se sentem próximos a Deus, através destes objetos.

Outras vezes, como em Maus Hábitos e Má educação, vê-se mais nitidamente um confronto com o que vem realmente significar o cristianismo na vida de seus personagens. Será ele tão verdadeiro, real e onipresente? Assim, como necessário para a continuidade de suas vidas. Pedro acredita que muitos momentos, torna-se nefasto e cruel (Vide personagens de Má Educação - constantemente afetados pelos maus tratos psicológicos e sexuais por parte dos Padres em seus estudantes-pupilos).

Então, há o sagrado como violentador de almas, e nisso, Almodóvar, é perfeito em suas demonstrações.

Contudo, a religiosidade, em algumas vezes, vista em seus filmes, assume um papel, mais real e verdadeiro, uma fonte de fé a uma única saída a seus personagens tão conturbados e descrentes. No entanto, por exemplo, no fim de A Lei do Desejo, o altar, tão valorizado e amado por Carmem Maura, pega fogo e lentamente os santos e fotos, ali depositados, são incinerados e Carmem Maura e sua filha acabam sendo salvas pelas mãos dos homens.


As cores, a música, o figurino e o Kitsch.
 As cores, muitíssimo vivas, remetem quase que a sonhos, obras de arte delirantes. Elas são um personagem a mais em cena. Têm o poder de transformar e catalisar emoções, sentimentos. Desnudam a alma dos personagens, transmutam-se em signos dos mais diversos apreços.
Muito bem empregadas por Pedro, já não podem viver solitárias em seus filmes, suas cores são palavras ditas, sussurradas, choradas, alegres, sentimentais, cruéis, malvadas, nefastas etc.

Pedro se apropria de elementos pictóricos, pouco explorados por outros cineastas, para escrever, reescrever, editar, colar e copiar dados intrinsecamente importantes e reveladores da história apresentada.

Vale aqui citar um frase do diretor: “A vitalidade de minhas cores é uma forma de lutar contra a austeridade de minhas origens”.

Infere-se que Almodóvar bebe na fonte de Frida Kahlo, Akira Kurosawa e inúmeros artistas, os expressionistas, que fizeram das cores uma marca própria, assim, como do caribe e seus ancestrais árabes, uma vez que o seu nome é oriundo dessa cultura.

A música, outro recurso “básico” para se entender Almodóvar, é um ser vivo em cena, assim como as cores, ela dita o ambiente. Revela, através de sua linguagem, de sua harmonia, de sua sonoridade, ou mesmo, por meio de suas letras, inúmeras informações relevantes à história. Quase todos os personagens estão ligados a músicas, onde consideráveis vezes passam por interlocutores dos próprios personagens, transitando em seus universos, revelando suas faces, ou mesmo, escondendo-as.

Nota-se que o figurino, também, é algo extremamente importante, não apenas aos personagens, mas também para definir as bases estéticas de seus filmes. São excepcionalmente elaborados e se tornam uma simbiose junto aos personagens. Profundamente interligados à alma de cada um que os veste. O que poderíamos dizer dos deliciosos figurinos de Kika, elaborados por Jean Paul Gaultier? Não menos, o figurino Channel vestido por Victória Abril em De salto Alto, todavia não é só de glamour que vive seus personagens, em roupas básicas, diárias ou “normais” verifica-se a potencialidade dos figurinos e seus adereços. Os brincos, colares, a maquiagem, todos esses “artifícios” transforma-se em um a estética própria, ganhando vida e simbolizando signos, muitas vezes escondidos em um primeiro olhar, eles “falam“, “dialogam“ com as cenas, as histórias, os personagens e os telespectadores.

O kitsch em Almodóvar é um atributo de extremo respeito, digamos dessa forma. Pois, uma vez que, as cores, a música e o figurino retratam seu universo, o Kitsch é a forma que ele encontrou para que todos esses atributos vivam e orbitem. Seria uma espécie de “moradia” para eles. Através, da estética montada com esses elementos, qual seria a forma mais perfeita de retratá-los? A não ser com o Kitsch? Se Almodóvar fala do universal em todos nós, de inúmeras situações sentimentais e cômicas ao mesmo tempo, onde iríamos encontrar sustento a elas, a não ser no exagero, na melodramaticidade e até mesmo no sensacionalismo que o Kitsch permite ser.

O gosto mediano das massas vive no Kitsch, se alimentam dele e vice-versa. Não seriam esses os valores passados, demonstrados por Pedro? Tudo isso relacionado às histórias, cenários, figurinos etc.

Já quanto, o estereótipo dos personagens que nos é revelado no universo almodovariano, nota-se que não é o estereótipo do mass media, e sim, os estereótipos dos desprovidos, vistos por eles mesmos, de acordo com seus próprios mundos e histórias. Ex: A prostituta de Almodóvar é sábia, falante, sentimental, humana, ao contrário do estereótipo apresentado pela sociedade. Sendo por esse ponto de vista, podemos, mais uma vez dizer, que Almodóvar torna-se o “Pai” dos excluídos, enxergando-os como realmente são. Humanos.



O reconhecimento.
 Ganhador do Globo de Ouro e do Oscar de melhor filme estrangeiro, Tudo sobre minha mãe (1999), definidamente, coloca Almodóvar no seu devido lugar, ou seja, no topo de um grupo seleto de cineastas, que transcendem suas histórias, falando do universal, inerente a todos nós. Película de grande teor dramático, cômico, sentimental nos leva aos mais incríveis lugares. Mergulhamos no mundo de personagens, que aparentemente nada tem em a ver como nossas realidades, ma que, porém, estão lá: vivendo, sofrendo, amando, morrendo, rindo.
Em Tudo sobre....vemos os universos almodovarianos: os bastidores, a escrita, o espetáculo, o teatro, a religião, as atrizes, a mãe, o filho e os travestis, estão todos lá. São extremamente humanos, frágeis e fortes ao mesmo tempo, e suas histórias transformam e transcendem. A maturidade é vista nessa obra em toda sua plenitude. A fotografia, a música, os atores e todo o processo criativo envolto são surpreendentemente perfeitos e alinhados à proposta, nunca esquecida, de Pedro - contar histórias, através de personagens únicos e singulares.

Um travesti pai-mãe, Lola - que muda sua natureza, seu corpo, contudo algo nela permanece intacto, imutável, talvez sua alma, extremante tocante a cena em que Lola aparece de óculos escuros, descendo uma escada ela é a encarnação da morte-vida, uma vez que possui HIV positivo.

Uma freira com HIV positivo, grávida de um travesti; uma atriz lésbica, vivendo um intenso e conflitante idílio amoroso com sua namorada, viciada em heroína; uma transexual, que rouba a cena sempre que aparece, seu nome Agrado, já diz tudo, não. Temos, também, Manuela e sua dor insuportavelmente bela, pela perda do filho.

Deduze-se, que Almodóvar, quis retratar e falar das variedades de famílias possíveis no final do século XX, através de Manuela-Lola, de Lola-Rosa e afins.


Abraços Partidos.

Mais uma vez Almodóvar nos surpreende com um filme belo, triste e assustadoramente real. Os Abraços Partidos, nome de seu mais recente trabalho, nos leva a refletir sobre o abuso de poder, as dores, a culpa, a entrega, os sacrifícios, os amores plausíveis e os amores impossíveis, entre outros temas. Bem, por aí, já é possível imaginar, que vem "chumbo grosso" pela frente. Enquanto seu penúltimo trabalho, Volver, falava sobre a possibilidade de voltarmos atrás em nossas vidas, de redenção, nos dando a possibilidade de seguirmos em frente, mesmo machucados, em Abraços Partidos, essa possibilidade não existe, o que há é apenas o sofrer humano, mostrado de inúmeras formas e planos. Não é à toa que temos dois tempos em que ocorre a ação, passado e presente e três espaços interligados, ou seja, um filme dentro de outro filme que é sucessivamente filmado, documentado por um personagem. Tudo isso parece complicado, mas ao vermos o filme é perfeitamente entendido e absorvido.

Penélope Cruz é Lena (Magdalena), secretária de Ernesto, que representa o Estado, o paternalismo, o machismo. Lena, que cuida dos pais enfermos e eventualmente se prostitui para conseguir dinheiro para ajudá-los, se vê acuada quando seu pai precisa de tratamento de saúde e o único a recorrer é seu chefe, que a apóia e ajuda imensamente. Tocada por um sentimento de retribuição e inércia sob sua vida, acaba entregando-se a um relacionamento sem amor por este homem mais velho e extremamente rico, que lhe dá uma vida confortável, porém vazia. Mas, Lena tem um sonho, o de ser atriz (talvez para não ser ela mesma, fugir de seu destino e suas angústias), por isso, termina conhecendo o diretor de cinema, Mateo Blanco, que mais tarde, também irá fugir de si mesmo com o pseudônimo Harry Caine. Os dois se apaixonam, entretanto esse amor é quase impossível, uma vez que o produtor do filme é o marido de Lena. O filme torna-se o sentido de sua vida e terminá-lo, mesmo sendo espancada pelo marido, é sua obsessão, é sua forma de sacrificar-se, de colocar, inclusive, seu sonho, acima do amor.
Ainda há outros personagens fundamentais na estória, um é Judith, produtora e inseparável amiga de Mateo, ela é o retrato da culpa, do remorso, seu rosto é só sofrimento e amargura durante toda a película, que obviamente, é explicado no decorrer da ação; outro personagem é Ray X, filho de Ernesto, homossexual e reprimido pelo pai, ele passa, a pedido deste, fazendo todo o making off do filme de Lena.

Ray X, nome que nos remete a raio x, tem exatamente essa função, de mostrar, através
de suas filmagens, o mundo de Lena, o mundo que não é compartilhado com Ernesto. Então, vemos que Ernesto, machista assumido, só consegue ver realmente Lena sob a lupa do filho, ou seja, da sensibilidade de um homossexual.
Personagens extremamente densos e profundos que em meio a abraços partidos, nos levam a lugares muitas vezes escondidos e que nem sempre gostamos de lembrar de suas existências, entretanto, se não vivermos as dores que eles escondem, não poderemos ser nós mesmos. Viver a dor, para ser total, para se completar, para ter um nome próprio, essa é a busca frenética dos personagens.
Nota: Observe no decorrer do filme as citações a outros filmes do próprio Almodóvar, assim como a ambientação baseada em filmes dos anos 50.



Filmografia:
Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (1980);

Labirinto de paixões (1982);

Maus Hábitos (1983);

Que eu fiz para merecer isto? (1984);

Matador (1985);

A lei do desejo (1986);

Mulheres à beira de um ataque de nervos (1987);

Ata-me! (1989);

De salto alto (1991);

Kika (1993);

A Flor do meu segredo (1995);

Carne trêmula (1998);

Tudo sobre minha mãe (1999);

Fale com ela (2002);

Má educação (2004);

Volver (2006);

Abraços Partidos (2009).

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Música para o amor e a dor

Ouça essa:

"Subi em cima da mesa, dizendo: seu moço, traz mais uma gelada que a nega aqui, hoje, teve alforria..."  Roupa do Corpo

E, então, legal não!! É letra e música de um guri daqui de Porto Alegre, mas que já foi morar em sampa, em busca de seu lugar, pois todos sabemos que aqui a carroça é lenta. Agora, só nos resta esperar por um show aqui.



Seu nome, Felipe Catto, 23 anos, compositor e cantor. Suas interpretações são dramáticas, intensas e extremamente apaixonantes. Personagens boêmios habitam suas canções, derramando todas suas angustias, belezas, tristezas e alegrias. E, sem contar que sua voz de contratenor, extremamente rara no mundo, é algo a parte.

E para fechar, vale a pena dar uma olhada em sue site, http://filipecatto.com.br/  lá, pode-se baixar seu CD, Saga, gratuitamente, e ver alguns vídeos. Legal, não? Nota-se, que o cara tem visão de mercado,  disponibilizando suas músicas na rede. Não há mais como fugir do virtual, as músicas em cd, estão com os dias contados e as gravadoras com os cabelos em pé. Se cobrassem o valor justo e pagassem, também, o valor justo aos artistas, hoje,j não estariam alarmadas. Mas, esse já é outro assunto.

P.S. O texto acima, não é um release, uma divulgação, é apenas um reconhecimento, por algo muito interessante, que há tempo, eu não via e ouvia em nossa música. Não, não sou amigo do cara e não o conheço pessoalmente, apenas sou um bom ouvinte seu.

Fui.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Traição, frio e chuva dentro de nós mesmos


Os dias foram passando, tão rápidos e absorvíveis, que quando me dei conta, já faz 40 dias que não posto nada. Em primeiro lugar desculpa aos que ainda possuem paciência para espiar esse Blog e em segundo, peço desculpas a mim mesmo, algo como: Desculpa-me por me Traíres. Lembram? Nelson Rodrigues! Adoro esse título, resume muito de nossas vidas, aliás, o que de Nelson Rodrigues não revela a vida como ela é. Pois é, acabamos por trairmos a nós mesmos, essa não seria a pior das traições?

Nossos conceitos, virtudes, medos, normas, éticas, desejos; todos habitam nosso ser, porém, em virtude de preceitos sociais e culturais, acabamos muitas vezes traindo-os, ou seja, indo de encontro ao aposto do que acreditamos, do que buscamos. Portanto, para mim, a pior traição não é aquela que envolve um outro ser e sim a que vem antes, a que diz respeito a nós. Não caros leitores, não pensem que sou um devasso em busca de um Galígula dentro de mim, sou apenas mais um ser humano, que tropeça, que levanta, que anda, que chora e que acabou de admitir que se traiu, ao deixar o Blogueiro de lado, adormecido, escondido

Razão para isso, não sei, falta de tempo é a primeira mentira-traição que nos vêm à mente. Quero e busco, pelo menos, alguns momentos de verdade em meio à nossas vidas tão conturbadas e absorvidas por constantes pequenas-grandes- mentiras, as quais todos os dias batem à nossa porta e que muitas vezes somos obrigados a atuar nesses imenso palco. Um dia desses vi alguém falando que a vida não é para principiantes. Não parecem legítimas tais palavras?

Um tanto triste? Sério? Pura bobagem? Nostálgico? Não sei, só sei que lá fora faz frio e chove. Perfeito para olharmos para dentro...Abçs.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A insustentável leveza da invisibilidade


O livro, O homem invisível do autor britânico Wells,...

 ...que mais tarde viraria filme...



...  e na década de 80, série de tv.



Quando era garoto, na faixa dos 10 anos, meu herói favorito era o homem invisível. Ficava imaginando por horas a fio, principalmente antes de dormir, como seria uma vida assim, praticamente desabercebida, acredito ser isso que me encantava. O sonho de estar em algum lugar, porém, sem ser visto. Teria coisa melhor que isso? Poderíamos entrar na casa de vizinhos, parentes, amantes e espiar tudo, ver como aquelas pessoas viviam em suas intimidades, observar seus comportamentos, seus medos, desejos, ilusões. Estamos falando do início da década de 80.




Com o advento tecnológico, vieram os computadores personais, as câmaras de vídeo e o planeta tornou-se um enorme Big Brother, os Realitys tomaram conta do mundo e, todos nós nos tornamos um pouco invisíveis. É difícil encontar alguém que já não tenha dado uma espiada em qualquer um dos Realitys apresentados. Ao mesmo tempo que somos aparentemente agraciados com esse sentimento, vamos nos tornando invisíveis perante nossas próprias vidas, e o que era para ser apenas uma "diversão", torna-se uma aniquilação do ser e, aquele homem invisível da década de 80, tão inocente, acaba por não existir mais. Agora, o espetáculo e, esquizofrenicamente, a necessidade de aparecer e ser ou estar celebridade, torna-se fator indispensável para continuarmos rumo ao nada, à invisibilidade total, pois quanto mais espiamos a vida alheia, menos vivemos a nossa e o mesmo ocorre quanto mais sentimos a necessidade de aparecer, de se mostrar, menos viveremos nossas essências e singularidades.


E, todo esse "texto", nasceu, hoje, quando estava no MSN e observei a ferramenta invisível:  um ar de infância inundou minha sala e, por um momento, acreditei que ele - o homem invisível - do garoto de 10 anos, ainda estava vivo, contudo, o peso da insustentável leveza da invisibilidade atual se fez presente, e meu super-herói, mais uma vez desapareceu.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sejamos a Comissão de Frente da Unidos da Tijuca

Sejamos a Comissão de Frente da Unidos da Tijuca, que em um piscar de olhos trocava de roupa. Mudemos nossa visão de mundo equivocada, mudemos ideias e conceitos já mortos. Transformar, sempre é preciso e possível.


E o ano parece começar...

A criatividade da Unidos da Tijuca levou a melhor, ou seja, a taça de campeã do carnaval do Rio de Janeiro 2010. Criatividade é o que precisamos para levar nosso ano em frente, será? Ou precisamos somente acreditar em que algo de bom possa acontecer. Acreditar: Arruda atrás das grades, talvez seja por pocuo tempo, porém, para nós brasileios, cansados, humilhados e provocados diariamente, isso já parece o ínício de que algo possa começar a mudar.

Sim, podemos ser criativos e esperançosos em nossos vidas, contudo, isso só reflete a esfera pessoal de nossas histórias, uma vez que estamos interligados com o social, é impossível fugir, fechar os olhos, ou negar a realidade que nos circunda dia-a-dia, ela faz parte de outro lado de nossoa vidas, do lado que muitas vezes não queremos participar, se envolver, ou até mesmo acreditar que ele possa existir, entretanto é só sairmos às ruas, que este lado obscuro da vida vem à tona.

Lá está ele, representado pela falta de políticas públicas capazes de nos transformar em cidadãos melhores. Lá está ele representado pelo povo de rua, que aos nossos olhos não existem, logo nós não os respeitamos, não os vemos como outros cidadãos. Lá está ele na maldade, no egoísmo e na avareza diária ao qual somos submetidos, ou mesmo na qual fazemos parte, nos inserimos a esse jogo delirante, onde todas as peças já vêm marcadas, entretanto essa será a verdadeira realidade? Poderíamos tentar enxergar o mundo de formas diferentes. ACREDITAR. Sempre. É ter mais paciência, menos egoísmo e ganância. Cooperativismo entre os seres humanos. O que será isso? Descobriremos caminhando lado a lado e não à frente um do outro.

OK. Sabe-se que toda transformação não se dá da noite para o dia, contudo se aos poucos iniciarmos uma sensibilização, um dia talvez chegaremos SER DA RAÇA HUMANA.

O texto, nada tem em a ver com esoterísmo, auto-ajuda e essas coisas, longe disso. Ele apenas retrata coisas que muitas vezes pensamos, mas não falamos, e nunca esqueçam: vocês são livres para acharem o que quiserem.

Abçs. Até.