Mais uma vez Almodóvar nos surpreende com um filme belo, triste e assustadoramente real. Os Abraços Partidos, nome de seu mais recente trabalho, nos leva a refletir sobre o abuso de poder, as dores, a culpa, a entrega, os sacrifícios, os amores plausíveis e os amores impossíveis, entre outro temas. Bem, por aí, já é possível imaginar, que vem "chumbo grosso" pela frente. Enquanto seu penúltimo trabalho, Volver, falava sobre a possibilidade de voltarmos atrás em nossas vidas, de redenção, nos dando a possibilidade de seguirmos em frente, mesmo machucados, em Abraços Partidos, essa possibilidade não existe, o que há é apenas o sofrer humano, mostrado de inúmeras formas e planos. Não é à toa que temos dois tempos em que ocorrem a ação, passado e presente e três espaços interligados, ou seja, um filme dentro de outro filme que é sucessivamente filmado, documentado por um personagem.Tudo isso parece complicado, mas ao vermos o filme é perfeitamente entendido e absorvido.
Ele entregue totalmente ao momento, ela com seu olhar distante
revela que não gostaria de estar ali: um abraço partido.
Penélope Cruz é Lena (Magdalena), secretária de Ernesto, que representa, o Estado, o paternalismo, o machismo. Lena, que cuida dos pais enfermos e eventualmente se prostitui para conseguir dinheiro para ajudá-los, se vê acuada quando seu pai precisa de tratamento de sáude e o único a recorrer é seu chefe, que a apóia e ajuda imensamente. Tocada por um sentimento de retribuição e inércia sob sua vida, acaba entregando-se a um relacionamento sem amor por este homem mais velho e extremamente rico (vide foto acima), que lhe dá uma vida confortável, porém vazia. Mas, Lena tem um sonho, o de ser atriz (talvez para não ser ela mesma, fugir de seu destino e suas angústias), por isso, termina conhecendo o diretor de cinema, Mateo Blanco, que mais tarde, também irá fugir de si mesmo com o pseudônimo Harry Caine. Os dois se apaixonam, entretanto esse amor é quase impossível, uma vez que o produtor do filme é o marido de Lena. O filme torna-se o sentido de sua vida e terminá-lo, mesmo sendo espancada pelo marido, é sua obsesssão, é sua forma de sacrificar-se, de colocar, inclusive, seu sonho, acima do amor.
Ainda há outros personagens fundamentais na estória, um é Judith, produtora e inseparável amiga de Mateo, ela é o retrato da culpa, do remorso, seu rosto é só sofrimento e amargura durante toda a película, que obviamente, é explicado no decorrer da ação; outro personagem é Ray X, filho de Ernesto, homossexual e reprimido pelo pai, ele passa, a pedido deste, fazendo todo o making off do filme de Lena.
Ray X, nome que nos remete a raio x, tem exatamente essa função, de mostrar, através de suas filmagens, o mundo de Lena, o mundo que não é compartilhado com Ernesto. Então, vemos que Ernesto, machista assumido, só consegue ver realmente Lena sob a lupa do filho, ou seja, da sensibilidade de um homessexual.
Personagens extremamente densos e profundos que em meio a abraços partidos, nos levam a lugares muitas vezes escondidos e que nem sempre gostamos de lembrar de suas existências, entretanto, se não vivermos as dores que eles escondem, não poderemos ser nós mesmos. Viver a dor, para ser total, para se completar, para ter um nome próprio, essa é a busca frenética dos personagens da obra que deve se estender a nós.
Nota: Observe no decorrer do filme as citações a outros filmes do próprio Almodóvar, assim como a ambientação baseada em filmes dos anos 50.




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